Amor e casamentos

A louca chorava na porta do super-mercado,
Dizia sobre seu marido falecido de infarto
– dez anos passados!
Que poderia ter-lhe sido mais presente,
Tão logo quase percebera seu peito pálido,
O jeito de olhar doente,
A língua no céu da boca agreste
E o pescoço atrofiado.

Não suspeitei de qualquer arritmia
Artéria aorta entupida nem pressão alta...
Eu não poderia, antes de sua morte,
Saber do inevitável ou da anestesia
Pra suportar a repentina dor da perda.


Travestido de sua vida, eu a escutava...
Não tive lenço branco pra oferecer-lhe
E suavizar a queda de suas lágrimas
Mas estendi as mãos em concha.
Projetei seu sofrimento para dentro de mim,
Vivi as bodas de seu matrimônio,
Gestei seus filhos,
Jantei com seu marido contando-me
Da promoção no trabalho.
Fui o escuro triste de sua viuvez
E a indignação com a pressa de Deus:
Ainda cedo morreu quem não deveria!

Chega um homem alto, preocupado.
Ternura no aconchego do lábios:
- Com licença, nos desculpe...
Somos há dez anos casados
Sou esposo de quem lhe confia o choro.
– toma amor, é teu remédio...
E deu a cápsula na boca da amada.

Ao meu desamparo explicou:
- Nunca mais foi a mesma.
Desde quando nos enlaçamos
E morreu amargurado
Seu primeiro namorado.



Cristiano Siqueira
(Foto de Trent Parke)