Amor além dos poemas de amor
(XXI - Rotina de árvore)

Desceu a rua do beco para ir ao botequim. Enquanto descia, a rua envelhecia os tons da tarde mas não prometia a entrada da noite nem o recomeço dos dias. Aquele instante não era de alívio, não era mais uma hora de comer grãos ou mais uma hora de não pensar em nada. Nada de pensar que pensar em nada era a forma mais espontânea de viver. Nada de pensar que o ser humano inventou filosofias e compromissos distintos dos animais. Era sentir-se sem se saber sentindo. Que mal haveria nessa rotina de árvore? Mas nem sempre ele foi assim. Tivera sim alguma noção de sua vida. E por mais que fosse essa noção verdadeira, foi uma mentira que lhe convinha pra se dar continuidade. Saber da própria vida não significa saber da vida. Restou que tudo que encontrou foi uma maneira de se esconder que lhe serviu de fantasia. Bastante já o tinha procurado de si em si mesmo e nos outros. Fez até o contrário. Olha que deu certo... Mas sem perceber, aposentou-se de ter maiores informações do que era ou deixava de ser, só pra se ocupar da forma mais simples de ser: ser.


Cristiano Siqueira

(Foto de Sebastião Salgado)


Amor mundano

Se Deus era ou não era
Uma espécie de dono
Criador do todo
Desde a face da terra?

Quanto mais me perguntava
Mais um abismo se abria
Entre o que ela queria
E onde eu estava.

Mas de súbito,
Como descesse do púlpito,
Na língua da vida me falou:

Já me prostituí por amor...



Cristiano Siqueira

(Foto de Henri Cartier-Bresson) 


Amor além dos poemas de amor
(XX - o poeta está cansado)

o poeta está cansado.
desiludido
rima adjetivos
sem saber rimá-los.

o poeta
não vê graça.
não há nada que traga
o tempo em que era
ao menos um ínfimo
destino
de poeta.

o poeta bem que tenta
mas nada rebenta 
nas brenhas do poema.



Cristiano Siqueira


(Foto de Geraldo de Barros)

Amor além dos poemas de amor
(XIX - todo mundo num terrêro)

memórias de um preto véi ganhador
do prêmio nobel da paz em 2888.

muita pinga na cacunda
tacaro na macumba

búzio de babalaô
ifá e o seu tarô do amor

das entidade num havia
uma só que num vinha

ora ora deixe estar
se é eles podentrar...

o vigário no tambô
nossinhora e o pastô

o semba do eremita
e a cerveja carmelita

o monge bebeu vinho
com o cético adivinho

a hóstia e o luterano
martin tava cantano

uns deuse de ateu
e o karma do judeu

toda gente adorano
o girassol do pataxó

jeová reencarnano
a geração de sua avó

moisés jacó dano estrela
jogavam capoeira

o feitiço e o mito
das divindade do olimpo

até mesmo o beiçudo
reza cum nóis tudo

em se tratano de credo,
ninguém tá errado,

nem certo!



Cristiano Siqueira


Amor além dos poemas de amor
(XVIII - Multidão)


Perguntou-me quantos
de mim em mim
havia.

Eu disse independia...
Pra qual dos mims foi a pergunta?


Cristiano Siqueira




(Foto de Blake Andrews)


amor de um beijo só


desde que foste
ficamos

fora nosso adeus

algo passageiro
mas tão eterno quanto um Beijo





Cristiano Siqueira



(Foto de Niels Jorgensen)




Amor além dos poemas de amor
(XVII - ai)


se eu pudesse exprimir
numa só palavra
a minha vida eu diria
assim convicto
sem mais evasivas
o verbo ai

ai de meus tombos numa infância
tantas dores ralaram os cotovelos 

ai das noites mal dormidas
exame noutro dia
recuperação

ai do filho doente
eu de susto avisado
medo-morte do meu pai

ai na surra da bete
vara de macieira
pra dar gente descente

ai nas orações
não atendidas
virgem maria
ter fé eu não sabia?

ai das paixões
doridas
altares que consagrei

ai do meu bonsai
morto de sede
pela água esquecida

ai das minhas tosses
presas no receio
de incomodar

ai daquelas mãos
gélidas suadas sem jeito
com meu par de quadrilha

ai quantas dores de barriga
ira da comida
e meu medo de lançar

ai de todo meu
contentamento e alegria
por aprender a chorar

ai por toda a esperança
alento e nostalgia
que a vida dá

ai do meu ai.

ai de meu ai que gritei
ao nascer
no colo-lar de mamãe

ai pela sorte
que se me traiu
conduziu continuar

Ai!

ai do que escrevo
agora
esgotando em poesia
.
.
.
.
.
.
.
a sangria desta história






Cristiano Siqueira


(Foto de Vicente Sampaio)

Amor além dos poemas de amor
(XVI - Magia)

A não ser os poetas,
Ninguém inventou controle remoto
pra fazer das pedras uma porção de neblina.


Cristiano Siqueira

(Foto de Renne Burri)


Amor além dos poemas de amor
(XV - Axioma)

Talvez porque eu não tenha nenhum delírio
além da necessidade de sentir o simplesmente.
Mas claro! Há passagens
das quais me arrependi por mais de algum tempo.

Aprender a viver é algo que muito
se desaprende
Mesmo quanto mais
se arrisca.

Se eu fosse pintar um quadro da minha vida,
muito do branco usaria.
Plantar flores entre as cordas do violão.
É isso que me dá vontade!




Cristiano Siqueira

(Foto de Richard Bram)


Amor além dos poemas de amor
(XIV - Cartilha)


à época de aprender as horas
tia clotilde me ensinava.

ainda vejo:
doze relógios
mais alguns
sessenta medos!

eu não sabia discernir
o tanto
do tamanho
dos ponteiros...

ei! você dalí!
um nanico daqui,
este monstro de lá.
quanto dá?!


ai meu deus sumido de mim!
ai foto de jesus que não soprava
qualquer resposta errada!

ai meus cânticos de colégio de freira!
ai!
por que reter o dia
numa ampulheta de pilha!?

riam todos que julgavam
saber conjugar os tempos.

clotilde e seus modos
de mestra silvina!
a mesma cara que cora dizia!

fosse hora redondinha,
eu logo adivinhava!

agora,
fosse um quinze pra uma...
aí eu só queria voar pela sala,
fazer fuga com magia!

sei lá... ajustar...

dizer que eu tinha,
mais sem menos,

um poquim de poesia!


Cristiano Siqueira


(Imagem da obra "A Persistência da Memória"
                          de Salvador Dalí)


Amor além dos poemas de amor
(XIII - Monólogo)

Eu: Tô com saudade tanto dois de você, sabia?

Eu: Isso você diz de zero a dez?!

Eu: Claro que não!
    Como fosse dois de você pra caber!




Cristiano Siqueira

(Foto de Henri-Cartier-Bresson)


Amor além dos poemas de amor
(XII - Escritura)

comprei uma casa que ficava
em cima duma onda no oceano.
pelo que é verdade
e dou fé.

meus amigos diziam que o cristiano só poderia
ter comprado aquilo pra dissolver patrimônio.

eu dava de ombro.

e tirei anos e mais anos de trégua
tudo dentro daquela só segunda-feira.

foi quando muitos me levaram mais a sério
e vieram, mesmo de viés,
ajudar a dar versos pra tapar
os buracos do telhado.


Cristiano Siqueira


(Foto de Blake Andrews)

Amor além dos poemas de amor
(XI – Postagens)

Sei que já não posso
Deixar-te os meus recados.
Todo o meu silêncio,

       No branco dos parágrafos.

O futuro da saudade é fruto do passado.
Sobejo de tuas fotos nos meus olhos cerrados...

As promessas do céu
São manhãs de teu banho
Que nunca ao meu banho,
Conheceu.

A palavra aprisionada nas cartas não escritas...
Livrai-me do mal das postagens proibidas!

O que não nos dissemos abrirá meu testamento.

Ah! Meu amor por quê?
Porque me calaste pra dizer de teus segredos?



Cristiano Siqueira


(Foto de Henri-Cartier-Bresson)


Amor além dos poemas de amor
(X - Cultura)

Certa feita plantei umas sementinhas de fruta.
Eu mesmo fiz o regador à base de lata.
Furei tudinho o fundo da lata de farinha láctea.
E aguei, molhei, reguei...

Era ali na curva do quintal onde a terra
gestava meu pé de Seriguela.
Foi minha primeira plantação
depois das mamonas da casa antiga.
Nos ramos do mamoneiro eu brincava
de bolinha de sabão.

Demorou muito pr’algum tipo de verde
botar a cabeça de fora.
Mas eu continha a ânsia de regar mais do que devia.
Aprendi com o pai da namorada:
ói que água demais mata a flooor!

Quando eu já tinha quase desistido,
numa tarde de outono a prole vingou.
Nasceu acho que de uns nove meses!

Agora eu pensava até em esterco de morcego.
Mas cresceu a Seriguela
com os cabelo esparramado,
Deu dois três quatro palmo de altura
com um tom meio macho.

Bete quando viu correu pra vizinha
a Dona Doraci.
E a rua soube toda que fiz de minha mãe
Uma avó de capim.



Cristiano Siqueira


(Foto de Stuart Franklin)



amor além dos poemas de amor
(IX - Roupas no varal)


Quando meu avô morreu,
eu conhecia ser criança.

Mais nada!

Da janela vimos um silêncio
que só há nos editais da morte.

Chegou um carro preto.
Lembro que era bem carro
e bem preto!
Alongava-se em carro e cor
quanto mais olhando...

Surgia pra avisar...
Diziam ser Elias,
um rapaz que eu tinha medo!
Tanto ouvir a família falar.

Nosso quintal era que me lembro
mais largo que o imenso!

Eu estava assim de lado, avizinhado,
encostado ao muro sem saber participar.

O céu ventava roxo ameaçando chuva
e o quebranto dos telhados.

Assustado, vi mamãe correr
entre a primeira gota de chuva
e as lágrimas que não eram as últimas.

Ela vinha do anúncio
para o fundo do quintal, colher apressada,

nossa roupa no varal.





Cristiano Siqueira


(Foto de Flávio Damm)



amor além dos poemas de amor
(VIII - ai! esse tempo!)

esse tempo em que teus olhos não estão
no meu rosto
triste como o olhar de uma janela perdida pelo muro
dos vazios afundado
no que não há
significado.
              esse tempo,
       esse tempo,
esse tempo...
como bate um relógio
de sol contra o vento.

ai! esse tempo!

há tempos só me diz
do matiz da distância.
esse tempo não faz tempo,
mas é maior que a lembrança.


Cristiano Siqueira


(Foto de Christophe Agou)



Amor além dos poemas de amor
(VII - Estado de espírito)

Meu estado de espírito
não é uma coisa nem outra
Um elo de todas as coisas
com as folhas soltas

Dou três passos e paro
Olho para o céu e respiro
Sou mistura de fato marcado
Com a ilusão de um místico

Escoro meu ombro ao muro
Fecho o olho e delineio
O porquê de meu freio
E a velocidade dos mundos

Sou qualquer estado ilhado
Nem fora nem dentro de mim
Poeira cósmica ou um só cisco
Sou eu quem me assisto!


Cristiano Siqueira


(Foto de Trent Parke)

amor além dos poemas de amor
(VI - caminho sem ti)


caminho sem ti.
meu pensamento
lembra-se do seu.

quem será meu pensamento?

já te passastes por aqui
sem que não soubesses
caminhar sem mim?

não estou sozinho,
vem comigo a nudez do vento
que esteve entre nós naquele momento.

anda conosco
o que nos envolveu de corpo,
sol, sereno e janeiros
à sombra dos pessegueiros.


Cristiano Siqueira


(Foto de Narelle Autio)






amor além dos poemas de amor (V - 3 por 4)

alegro ma non troppo

haikais são
lançados
ao rio
da lira
que entorna
e amorna o amor.

fábulas
mitos da
vida nas
mãos percorridas:
dorso do alvor.

soltem-se
versos e
credos das
bocas aflitas de
deus indistintos
olhos de ator.

exú, com
platão de
cupido
dançando
quadrilha em
el salvador.

canta que
dança e que
canta que
canta e que
dança que
gira-e-não-
gira no en-
torno do sou.

nada tem mais unidade que a
falsa verdade da sábia
mentira de
ser quem eu sol.


Cristiano Siqueira


(Foto de Evgen Bavcar)

amor além dos poemas de amor (IV - fronteira)



a primeira coisa que fiz
foi pensar em nada.
talvez estive antes
do meu nascimento.


se fui sondado à vida
de vir, não lembro.
ou porque não soube,


ou soube vir a esmo.






Cristiano Siqueira

(Foto de Adrian Fisk)

amor além dos poemas de amor
(III- as ruínas da memória)

uma luz de penumbra
em seu rosto imparfeito,
fez branco e preto
minha quimera de runas.

as ruínas da memória
não são mais que a solidão
recordando sua presença.

a vaga de seus passos
– estáticos –
como quem vai embora,

mas não desvia a permanência.




Cristiano Siqueira


(Foto de Evgen Bavcar)

amor além dos poemas de amor (II - quase um nome)

só me interessa a sombra da curva,
este espaço deixado no vão
do espaço em que passo.

tal como pedra de sal
a naufragar um mar extinto

não sou mais que a sensação

de ter a morte um manto
em que se vai
ficando pra trás


ter o que não ter


quase um nome,
legado
dos lábios de meus pais.


 
Cristiano Siqueira

(Foto de Bevgen Bavcar)


Amor além dos poemas de amor (I - Gênesis)


Tomou feição de lágrima
no batismo da face.
Na medida que a alma fluía,
o corpo sublimava.
Ia beijar o pé das nuvens.
Quando viu
se viu
desiludido:
a criatura por si só sendo
criada?

Foi tomá-la pela mão.
Ao chegar precipitado
tombou um céu de altura.
O deslize do céu.
Desde então eles gravam
no busto da vida alguns de seus laços.
E há quem diga que o homem
vale de Deus na terra pra dar liga ao barro.



Cristiano Siqueira
(Foto de Nils Jorgensen)

amor à auto-biografia

cheguei por caminhos imprevisíveis,
acredito que lentamente
pra poder ficar:
ainda não cheguei

horas sou
que não sou
poeta: mas espero...

colho o aroma das flores
plantadas às margens
de um raio de sol

não penso pra poema,
deus também é minúsculo,
tenho as velas das rezas de minha mãe
acendidas sobre os ombros

quando delimito meu acaso
vem o etéreo e me dilui,
nos quintais de todo o espaço

dou minha mão para a outra
e atravesso ruas que não levam meu nome

se me sufoco giro em torno a mim,
não há como fugir:
ninguém ama mais nem menos do que o amor impõe.


Cristiano Siqueira




(Foto de Gil Prates)

amor e horizonte

quero te enxergar
jeito tal que tu me enxergas!

mas esqueço...

teu olho não é o meu
e meu modo de olhar
é o único que tenho.

não há como
sobrepor os olhares!

vem logo um horizonte
e converge nossos olhos
ao amor que direcione...


Cristiano Siqueira


(Foto de Richard Bram)

amor e devaneio

por trás das árvores
à frente das grades
cai a cor do céu.

meu pensamento diante
de teu semblante
não está sozinho
quanto eu.

folhas de outono
ressecam meus passos.
ecoa em meu caminho
a última oxítona de teus lábios.

nos teus ouvidos,
os sussurros das palavras
que ousei não confessar.


Cristiano Siqueira



(Foto de Nils Jorgensen)

Amor a Deus (III)


Dê-me a nota Senhor!
Dê-me a nota...

A que eu não possa alcançar
Bemolize.

A que por pouco não afine
Toma por mim
Suas comas.

Dê-me a nota Senhor!
E todo fôlego do ar

Cante a nota
Que eu mesmo
Quero cantar!


Cristiano Siqueira
(Foto de Evandro Teixeira)

amor e experiência

este amor
nasceu da distância
e aos poucos se aproxima

amor nascido ao contrário
seu berço incendiário
de tudo que supus
saber de amor

seu começo, meio e fim
foi apenas um meio
pra celebrar seus recomeços...




Cristiano Siqueira


(Foto de Henri-Cartier-Bresson)

Amor e conquista

Ao princípio, confesso:

– Pensei que pudesse
Minha literatura
Ser teu acesso...

Mas soube afinal:

– Toda conquista se perde
Quando quem não ama;
Não ama e ponto final.


Cristiano Siqueira



(Foto de Jesse Marlow)

Amor político

Seu discurso é um alívio
Mas se não diz eu te amo
Fico em Estado de Sítio.

Aos trincos e abismos
Faço um tablado
E imploro um comício.

Quando o clamor se infinda...
Ao menos a mim
Seu amor
Minta!


Cristiano Siqueira




(Foto de Narelle Autio)



amor e sangue!

arranca minha aorta!
rasga e serve na adaga
de teu coração!

o crânio de meu peito
trauma e cerebelo
sem direção!

acrobatas de sangue
sangram ilusões!
quero que o amor

sangre...

mas não estanque
os corações!



Cristiano Siqueira
(Foto de Jean Baptiste Mondino)

Amor no espelho

O espelho
De joelhos ao chão
Clamando por minha face!

Não me reconhece
E tampouco sabe:
Sou reflexão...

Tateia o concreto
Dos meus olhos,
Relega se interpreto
O abstrato do olhar

A vaidade e seus ditames.
Beleza e permanência.
Idade e nuance.

Afinal,
Sou eu quem se espelha
No vesgo espelho que me olha

e não me enxerga?



Cristiano Siqueira
(Foto de Renne Burri)


amor algoritmo


eros dividendo

desejo divisor

você no quociente

só restou o meu amor...



Cristiano Siqueira
(Foto Trent Parke)


Amor urgente!

Anda logo com isso!
Antes que tudo passe
E não pudemos ter
Mais que um quase,

Menos que no amor
Adormecer...

Não seria meu verso
– ante teu labirinto –
A desenhar-me na face
Oferendas a você.

Tenha pena de mim...

Não porque sou poeta
Que alcanço nos poemas
O alívio de te amar
E de-fi-ni-ti-va-me-nte,

Voltar a viver!


Cristiano Siqueira
(Foto de Jesse Marlow)

amor abismado!

em tudo,
não encontro
mais que a linha
de teu perfil.

o fio desse horizonte
entalha uma ponte
que liga os extremos
de meu precipício!

entre alísios e seios
teu lábio extático passeia
circundando meu corpo
num longínquo absorto.

hesito meu equilíbrio...
mas antes e sempre suplico:
quero despenhar

na imensidão de teu olhar...


Cristiano Siqueira



(Foto de Richard Bram)


Amor e volúpia

Meus olhos sôfregos
De belezas vagueiam difusos

Não encontram alívio.

Qualquer descrição
(Por mais metafísica seja)
Vai morrer descrição...
Não supre a ânsia do poeta à poesia!

A mais elevada das melodias
Não está à altura dessas mulheres.
Nem da astúcia de meus calafrios...

Repousa meu olhar
Perdido entre a apreciação
Etérea dos deuses,

E a fremente volúpia da carne.



Cristiano Siqueira
(Foto de Jesse Marlow)

amor solto

se eu me soltar,
só falarei de teus lábios
ou dos beijos que lhe dei
sem saber imaginado.

das vezes que morri
perdendo o ar
de tanto amar
teu hálito.

se eu me soltar,
não mais estarei envolto
ao que não quero
assumir.

teu semblante prende
preenche e seqüestra
meu arbítrio de ir e não ir
para longe ou perto de mim.

de não me soltar
e como um louco agir assim
é que tudo fica claro!

não curas meu olhar angustiado
mas com candura se sorris.
pois bem sabes que não me solto,

pra jamais desgarrar de ti!


Cristiano Siqueira
(Foto de Richard Bram)