Amor legado

Quando eu morri
Remexeram todos
Meus pertences.
Nem desordem, fastio,
urgências e calmaria
Nada de roupa, livro,
Cheiro e pasta de dentes.
Nenhum sorriso na parede
Ou melancolia de gavetas vazias,
Nem vôos de gaivotas no espelho
Muito menos minha sede
De envergar os ventos.
Nada encontraram
Quando eu morri,
Os parafusos de meus fusos horários,
Estrelas nas auras
Das mulheres que amei,
Abraços de amigos
Fotografias do tempo,
Exames de urina
Ou boletins em vermelho.
Vasculharam meus restos
E tudo estava perdido,
CPF, identidade, senhas
Nos papéis do esquecimento.
Sumiram minhas vozes na fita,
Sumiram minhas fitas e a fita amarela
Gravada com versos de Noel.
Não souberam de meus medos
Intricados nos azulejos do banheiro
Meus remédios vencidos
Minhas águas de cabeceira
Meu ralos com cabelos
Minha ira convertida
Minhas vésperas
Meu sossego...
Quando eu morri
Os meus cistos ósseos,
A secura dos meus olhos
Fósseis de lágrimas cristalizadas
Ou ainda marejadas
Não foram encontradas.
Estaria para todo sempre morto
Relegado ao desdém natural
De quem morre,
Não fosse os rascunhos
Que deixei num caderno tombado
À beira de minha lápide
E no coração de quem amou:
Meus poemas de amor!

Cristiano Siqueira

(Foto de Renne Burri)